Capas e Contracapas
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Les trois âges
Silva
Carvalho, né au Portugal en 1948, vit depuis quelques années en France.
«Les Trois Ages» est son premier livre publié en France, et représente,
d' une façon ou d'une autre, le temoignage poétique de ce séjour et de
cette expérience humaine.
Le lire c'est parcourir convulsivement l'itinéraire
tracé par la civilisation occidentale depuis ses plus lointaines
origines.
Mais c'est aussi se
sentir, avec émerveillement ou terreur, chaque étape, chaque pas de cet
être à la fois présent et fuyant, qu'est notre culture, espace
déchiré et déchirant entre le rêve et la réalité, le jour et la nuit,
la vie et la mort.
C'est encore un hommage poignant de l'auteur au
precessus de la création, qui, immanquablement, suit ces trois âges: la
Haine, la Solitude et la Folie.
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137 páginas preço
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Suor do Tédio
96 páginas - preço
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MEMÓRIA DO PRESENTE
62 páginas preço
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CANÇÕES
111
páginas preço
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ASSIM
108
páginas preço
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ESSAS VOZES
30 páginas preço
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Antes o Paraíso
20 páginas preço
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75 SONETOS
87 páginas preço
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AO ACASO
109 páginas preço
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SETEMBRO
77 páginas preço
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DA ESTUPIDEZ
128 páginas preço
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ADIVINHA: ESTILICÍDIO E
ENCÍCLIA
111 páginas preço
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NEM PROSA NEM POESIA OUTRA
COISA
109 páginas preço
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EM QUESTÃO
106 páginas preço
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O PRESENTE, A PRESENÇA
70 páginas preço
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A Experiência
Americana Ao Vivo
Silva Carvalho reacende
neste livro um duplo horror que caracteriza o seu imaginário: o horror à
metafísica platónica do belo e o horror à supremacia aristotélica ou
barroca da metáfora artística. Este horror é todavia fruto de uma
lucidez poética, ou «porética», que não visa outra coisa senão a poesia
sem a poesia, o puro gesto fluido e quase taquigráfico de um
sentimento vitalista que tem os seus melhores efeitos na criação
orgânica da Einfühlung
projectiva.
Aliando a narração realista a uma expressão lírica não raro
sincopada e abrupta, o autor prossegue uma «estética da imperfeição»
que despreza as belas imagens tão indissociáveis de uma ideia aprazível
da poesia. Contudo, se tal estética pressupõe a virtude dos seus
«defeitos», não é certo que o poeta enverede por uma Ästhetik des Hässlichen, ou estética
do feio, tal como a definiu Karl Rosenkranz na época de Baudelaire como
culminação da crítica do belo ideal iniciada no século XVIII. Esta
«experiência americana ao vivo», em ruptura sistemática com a ideia de
perfeição formal, e portanto do belo, exprime sobretudo uma experiência
do fascínio, mesclada de medo e terribilitá, perante a vastidão
esmagadora do absolutamente grande num espaço concreto mas sem limites
apreensíveis: a experiência do sublime, no sentido postulado por Burke e
Kant.
Nesta medida, apesar do seu realismo experiencial, o livro
confronta-nos com uma estética do impuro e da ilimitação que a todo o
instante procura negar-se a si mesma sem deixar de resistir como força de
negação do belo ideal e das suas metástases contemporâneas. Longe de
deformar o contorno do finito, caindo no feio ou no grotesco, o poeta
ultrapassa-o fundindo razão e sentimento num ponto energético do
espírito acima de qualquer totalidade, e assim transferindo o sensível
da face da linguagem para a presença esmagadora dos objectos em que toda
a subjectividade se dissolve. O que só surpreende quem não conheça
Silva Carvalho, cujas produções carregam uma natureza bruta que invade a
consciência com o fragoroso desabamento da linguagem e dos cristais que
reflectem os seus
mitos.
Luís Adriano Carlos
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195 páginas preço
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O PRINCÍPIO DO ECO
120 páginas preço
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TEORIA DA DISPONIBILIDADE
102 páginas preço
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CRÍTICA DAS REPRESENTAÇÕES
102 páginas preço
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MAIS OU MENOS
55 páginas preço
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NEW ENGLAND
Não existe criador
literário mais injustamente ostracizado, silenciado, pelo nosso
(português) sistema literário, que Silva Carvalho (n. 1948 e que publica
regularmente desde 1977). Não confundir com Armando Silva Carvalho. O
primeiro é um poeta superior, embora seja o segundo a ser amaciado e
louvado pelo meio literário. O que revela bem dos seus complexos, da sua
estreiteza e afecção. Ou segundo Silva Carvalho: "Ninguém, é o
preço do silêncio a que sou votado desde sempre, como um incessante
desconhecido ... Assim nunca mais terei leitores pátrios." Silva
carvalho é só, aparentemente, um autor difícil. A desconstrução, o
quotidiano e a revolução permanentemente se enrolam na sua poesia, cuja
personagem principal é ele próprio. Há uma irrisão da ficção a favor
do real. E Jorge de Sena é talvez a sua influência mais forte. Até na
sua relação poemática com a música, com o real e com o Humano.
Igualmente se intromete no Romance com o anti-Romance "Palingenesia",
altamente autobiográfico. Silva Carvalho também é um criador de
conceitos como a "catacrese", "porismo", etc., que
semeia nos seus livros, em especial de poesia (aí reside o essencial de
sua produção literária). Um dos seus momentos mais brilhantes e
desconcertantes, foi conseguido no livro de ensaios "A Linguagem
Porética" (1996, Brasília editora), aonde se abate sem cerimónias
sobre a dita qualidade excepcional dos nossos poetas da segunda metade do
Sec. XX. Em especial, ataca a trindade imaculada, Eugénio de Andrade,
Herberto Helder e António Ramos Rosa, e a tudo que representam de espasmo
órfico, remetendo-os para a classificação pouco lisonjeira de
ultramodernistas. Finalmente, alguém os sacudiu do podium. Mas mesmo este
seu talento de polemista ou de provocador, foi, nesta terra de asnos e
sopeiras, reduzido a zero, anulado, numa espécie de conspiração do
silêncio (não premeditada, o que a agrava). Fazem de conta que não
existe. O que se torna altamente confrangedor, quando estamos perante um
dos mais poderosos e inquietos criadores literários dos últimos 30 anos
em Portugal. "A tarefa, disse-o tantas vezes, e disse-o humildemente,
é imensa. Não só mudar o mundo, que se transforma todos os dias, mas
mudar a mudança" ("O Romance Contenporâneo", Tertúlia
editora). Em suma: um enorme poeta. João
Urbano, Número Magazine, 11 |
217 páginas preço
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PALINGENESIA
OU O ESTADO E O PROCESSO DO ROMANCE
Do Dicionário:
PALINGENESIA, s.f. Filos.
Eterno retorno. Suposto regresso à vida, de pois da morte real ou
aparente; renovação, regeneração, renascimento./ Fig.
Renascimento moral. Transmigração das almas, segundo doutrinas
pitagóricas./ Crença na persistência da humanidade através dos ciclos
históricos, segundo Vico./ Doutrina, segundo a qual se pode, por
meio das cinzas de uma planta, reproduzir esta, ou, pelo menos, a sua
forma essencial, em solução./ Artifício óptico pelo qual se faz
aparecer a imagem de um objecto num lugar onde esse objecto não existe
realmente.
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244 páginas preço
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O ROMANCE
CONTEMPORÂNEO
Nasceu a 8 de Fevereiro de
1948 (Vila do Conde).
Frequentou dois anos de Medicina na Universidade de Coimbra antes de se
exilar em Paris, França, em 1969. Regressa a Portugal em 1975 onde se
licencia em Filologia Românica na Faculdade de Letras da Universidade de
Lisboa.
Professor do ensino secundário, Leitor na Universidade da Califórnia em
santa Bárbara, E.U.A. (!985-89), na Universidade de Goa, Índia (1990-91)
e actualmente na Universidade de Massachusetts, Dartmouth, E.U.A. |
120 páginas preço
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QUE ESTUPIDEZ!
Sobre o romance PALINGENESIA
ou o Estado e o Processo do Romance (Fenda Edições):
Difícil portanto, definir o género a que este livro
pertence. Autobiografia por um lado porque é o autor a falar de si
próprio, remetendo para o real da sua vida como homem e escritor, com
referências, por exemplo, aos livros já publicados ou já escritos, ou
remetendo para factos da sua vida real. Em certa medida, é um ensaio
sobre ideias, quer filosóficas quer literárias, onde o autor questiona a
problemática da vida e da morte, ou tece comentários acerca do cânon
literário ou sobre a escrita do romance. É um romance no sentido de que,
toda a realidade reescrita, remete para a ficção, uma vez que a linha
que separa o que realmente aconteceu do escrito é muito ténue. O
próprio narrador o refere: «as palavras, sendo as mesmas, tecem
figurações imprevisíveis quando expostas ao acaso da memória e ao
arbítrio do tempo» (p. 15).
(...)
Sendo este livro uma reflexão sobra a arte do romance,
para onde o subtítulo remete, são frequentes as pausas narrativas em que
o escritor aproveita para tecer algumas considerações sobre a ficção,
a realidade, e honestidade e a autenticidade literárias. Diz o autor que
a única ficção que o atrai é a realidade (cf. p. 116). Essa mesma
realidade tem-se ele esforçado por apreender através dos vários livros
de poesia que vai publicando. Entende, no entanto, que «escrever-se
romance não releva de nenhuma autenticidade » (p. 130). Talvez porque na
escrita de um romance tem de haver «uma certa cegueira, uma certa
ingenuidade, uma desejável estupidez. Só assim se arquitecta uma
história» (p. 40). Chega a duvidar se aquilo que vai escrevendo ao longo
deste livro é realmente literatura. «Se é, confesso que não estou
interessado, nem na literatura nem em ser literato! Contar, é verdade,
concordo, mas o quê?» (p. 105) José
Leon Machado |
238 páginas preço
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A LINGUAGEM PORÉTICA
A escrita porética é
essencialmente desassossegada e inquietante, não escolhe o momento da sua
ocasião, pelo contrário, vive da ocasião de todos os momentos. |
160 páginas preço
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MEDIOCRIDADE
ALGURES... NUM TEMPO QUE NÃO O
QUE AQUI FICOU INSCRITO
“Que estupidez!”
é uma coisa-livro de chacha (Heidegger) que se constrói paralelamente ao
discorrer do pensamento autobiográfico e da presentificação da
temporalidade quotidiana-VIDA.
A “prática narrativa porética”, intuída pelo próprio
autor há mais de uma década, “abre caminho” pela renúncia dos
protocolos do poder literário.
Propõe “a linguagem porética e umas estéticas da imperfeição e da
estupidez, contributos possíveis para a compreensão de uma outra maneira
de viver a escrita e o literário” pós-modernos. (p.88)
Não há história. Porque
a experiência histórica afronta-se pela temporalidade pós-moderna
introduzida pela “heteronímia vertical” (Carvalho) de “petits récits”
(Lyotard).
Não há género ou estilo. Porque, entre outras coisas, se
privilegia a explosão léxical, a fracturação híbrida, a hesitação (Kierkegaard),
o contorno aproximativo (Rorty), o desvelamento catacrético (Derrida),
um conteúdo e espaço-tempo reticulares...
Há sim, uma “estética da estupidez” defronte a um real inespelhável; e uma “estética da imperfeição” (Stevens) sem as
ilusões do perpetuado decoro estético.
Não há narrador ou autor. Porque se aceitou a desmistificação da
autoridade do artista-escritor romântico e da falsa autenticidade. Basta
a este “escrevedor” ser um homem, que mediocremente escreve a vida
taquigraficamente num screen que lhe recusa palavras e apaga o texto.
Sem outro propósito que não o terapêutico para a solidão e o terror da
morte, na carne de um corpo que sofre entregue ao desconhecido.
Mas ao trazer a vida do seu ser individual à escrita, questiona a sua própria
praxis linguística, e, num sentido mais lato, problematiza a relação
homem-língua-escrita.
Gonçalo Furtado
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205 páginas preço
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CAOS INDELÉVEL
INEFÁVEL
A LINGUAGEM PORÉTICA
This
book should not be dismissed as the potpourri that in one sense it is. For
it mixes critical pieces of evaluation, translations of poems, an
interview, essays at theorizing, an explanatory reading or two, and
numerous passages relating this book to author’s earlier work – both
critical and poetic. Whatever unity the book possesses lies, to a large
extent, in the author’s single-minded intention for it: it is, at its
best, insistently heuristic.
The
essential worth and significant contribution of A Linuagem Porética
lies as much in the author’s eye and ear for good literature as it does
in his intelligent way of thinking about literature. If it seems natural
for Silva Carvalho to theorize about what the writer does when he writes
and publishes or about what the reader does when he reads such literature,
it seems just as natural for him to serve as a cicerone to books not
always as well known or as widely read as he thinks they should be.
It
is in his capacity as informed and intelligent cicerone that I choose to
approach his own writing in A Linguagem Porética. Even to
students of modern American poetry it will come as a pleasant surprise to
see him championing poets he has discovered not by following the lead of
critics and scholars but through his own inner-directed reading. Indeed,
if one resurrects David Reisman’s tripartite division of American
character as “other-directed,” “tradition-directed,” and “inner-directed,”
any reader of Silva
Carvalho’s book can readily see that neither of the first two terms
applies to him. He eschews both the well-worn paths of tradition and the
newly worn ways of fashion in favor of making his own, sometimes lonely,
way. Hence under the guise of considering the poetry of Robert Lowell,
Silva Carvalho discovers the long career and the notable poetic achivement
of the still-with-us Hayden Carruth.
George
Monteiro |
185 páginas preço
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O Rito
Diário de um Hipocondríaco
Silva Carvalho
(1948) «Nasci por acaso em Vila do Conde» - assim, autoral, retrata-se,
logo na estreia (Suor do Tédio) s/d [1969] , p.89), como fará ao longo
da vintena de volumes de poesia, com balanço e explicação dessa entrega
diária em raros textos ensaísticos e, sobretudo, no romance
fragmentário Palingenesia (1998). É no interior do verso,
contudo, que a teoria da disponibilidade (título de 1994) se
organiza, na procura de «um ritmo calmo e lento/capaz de me fazer sentir
e pensar a loucura/desconhecida e inviolável de outra coisa.// [...] Mas
depois as palavras expostas à imaginação/da frase emancipam-se da
sintaxe procurada,/tenazes como corpos onde lhes falta a alma/buscam um
sentido para a razão enigmática /de estarem ali a preencher funções
perenes/que não escapam à legibilidade da história» (p.25-26). Busca
incessante, nume espécie de continuidade diarística semelhante ao
encavalgamento dos versos-frases, o A. ensaia «dizer a verdade» com «o
mundo da língua e não/com a língua do mundo» («A aporia», in o
Escritor, 3, Dez. 1993, p.19), o que se transforma numa ética da
criação, com efeitos devastadores sobre a imagem de autor
institucionalmente
rasurado.
Ernesto Rodrigues |
233 páginas preço
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As Estações
(1996)
A escrita de Silva Carvalho é
solidária com a inquietação que assola e consome o sujeito
contemporâneo - sujeito dividido, epigonal, em rigor, estilhaços de uma
unidade, se não perdida, pelo menos comprometida. Do legado pós-moderno,
o autor subscreve a tese que afirma que o paradigma que infectou toda a
tradição ocidental, o logocêntrico, está falido e que, por isso,
qualquer estética está confinada ao universo dos epifenómenos condenada
a ser micrológica. Da atopia daí decorrente, nasce uma estética da
inquietação ("apodemiálgica"), da desconstrução das grandes
narrativas (o sentido é ainda e sempre micrológico), linguagem suspensa
("parentética"), "pneumática" ainda, onde em cada
sílaba, no arfar que a constitui, palpita uma linguagem nem sempre
transparente, difícil, anárquica, soteriológica e crítica.
Silva Carvalho assume a contradição, mais adequadamente, vive a tensão,
a bipolaridade até, entre o absoluto e o relativo, o "centramento"
e a "descentração", a construção e a desconstrução -
sinais ainda da "escrita porética" - como marcas da própria
criação artística. No deserto, essa metáfora transversal e recorrente
nas tradições milenares, lugar de nascimento e morte, erupção e
disrupção, por um lado, Silva Carvalho irrompe, qual prestidigitador,
como arauto da palavra, no reconhecimento do seu poder e limites, através
da violentação dos espartilhos da linguagem, como é visível na
criação de neologismos e na recriação de um sem número de vocábulos;
por outro lado, no deserto ainda da linguagem que é a marca de quase toda
a contemporaneidade portuguesa, assume a consciência da finitude, do
fracasso, do definhamento, da morte do próprio escritor como processo
autofágico.
O que remanesce? O "escrevedor" - tarefa mínima de um
desiderato máximo -, que, à maneira das crianças, joga sem
intencionalidade e nesse fazer descobre caminhos. Sobra, acima de tudo,
aquilo que é, principalmente para Silva Carvalho, a tarefa central da porética
- errar e, ao fazê-lo, reinventarmo-nos nessa experiência, ainda que
lúdica, quase sempre dolorosa e penosa, de fuga do abismo.
António Cadima Mendonça |
326 páginas preço
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| Tetralogia
Fática
Silva Carvalho não escreve,
obviamente, em função do dispositivo literário. E não poderia escrever
na medida em que pratica algo que está aquém da literatura. Aquém no
sentido caracterialmente mais nobre do termo: como em Kafka, a entrada no
sistema literário representaria o abandono dessa mútua vigilância entre
si e o outro que a sua escrita exerce. Há aqui um desgosto levantado pela
rivalidade entre vida e escrita, há aqui um tal desejo da vida na sua
impossível inocência do literário e há, finalmente, uma tal
obstinação na nudez da vida escrita, que o paralelo, contextualmente
impossível, toma, subitamente, toda a sua razão de ser.
Em Silva Carvalho, o problema
estético reside na própria possibilidade de atribuirmos nomes da
estética aos objectos e às formas de que estamos desavindos. O problema
do estético assenta num nome que parece antecipar-se sempre à nossa
indagação de um novo autor. Esse nome mobiliza mais a agitação do
cânone, as suas recombinações, do que a vinda a este de uma voz em
sede.
A autores destes não incumbe
a sede da novidade, mas o próprio espanto de que ainda haja literatura.
Na nossa situação epocal, toda a afirmação de uma condição de autor
é problemática. Silva Carvalho aponta constantemente essa primeira
vertente da aporia da escrita literária.
Jorge Leandro Rosa |
342 páginas preço
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Díptico Musical
Em Silva Carvalho há uma
indecidibilidade entre poesia, prosa e ensaio. Há um entre que se joga.
Por isso a sua Porética é tão pouco atractiva aos poetas e aos
teóricos da literatura, pois desagrada a estes por ser a menos poética
das línguas e desagrada àqueles por ser a mais conceptual, a mais
crítica das linguagens. Em Silva Carvalho assistimos a uma
deslocação, senão mesmo a uma inversão, de todos os valores
poéticos, assistimos à rasura das poéticas neo-românticas e
neo-simbolistas que dominam ainda a paisagem portuguesa, para que passe
outra coisa muito mais exigente e arriscada, que não se contenta mais
com o pequeno lume da poesia, seu lirismo complacente, essa destiladora
de nostalgia, da pequena dor sacramental, e sem recair mais nas suas
ilusões ou nos seus jogos de embriaguez redentora, alquímica,
minimalista, perfeccionista e gnosiológica. Em Silva Carvalho não
temos poemas lapidados como diamantes, mas rugosos meteoritos. As
ilusões modernistas já não lhe fazem parte da escrita. Nele temos um
trabalho de desmontagem da ilusão literária, uma espécie de
desencantamento propositado, de não se deixar mais conduzir por nenhuma
forma de êxtase e de acabamento. Talvez aqui se perceba a sua recusa de
se entregar à ficção, insistindo num processo de permanente redução
ao real e às nódoas do tempo, suja testemunha é o próprio autor.
Silva Carvalho produz uma escrita quase auto-biográfica, testemunhal e
vincadamente conceptual, tentando evitar ao máximo o jogo metafórico e
a dobra ficcional. Direi que a figura reguladora ou desreguladora na
obra de Silva Carvalho não é mais a metáfora mas a catacrese, embora
ela se instale nas franjas da linguageme trabalhe na sua impotência, na
tentativa repetida e repetidamente falhada de capturar o incapturável,
o que, no fundo, não se quer capturar. Há uma espécie de
materialismo, de cru realismo e mesmo um certo pragmatismo em Silva
Carvalho. Como continuar a escrever sem estimulantes ilusões poéticas
ou metafísicas?, sem réstia de Platonismo? Aqui entre em cena a
Porética, que trabalha no que falha, que, por ironia do destino, não
falha onde as demais poéticas falham. É o perfilar-se da sua Estética
da Imperfeição. Parece-me uma evidência que desde Pessoa ninguém
mais, por estas bandas, acrescentou o que quer que fosse de relevante,
de conceptualmente decisivo, para a literatura portuguesa, excepto Silva
Carvalho, o único escritor capaz, nesta rectângulo, de solapar toda a
poética dos poetas e literatos, todo esse bafiento e já insuportável
sacerdócio.
João Urbano
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222 páginas preço
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248 páginas preço
Página
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